quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Catolicismo e Perenialismo são compatíveis?


Vez ou outra é possível encontrar pessoas com dúvidas sobre a compatibilidade entre a chamada Filosofia Perene e o Catolicismo.

A resposta é um belo e sonoro NÃO. Não são compatíveis.

Não é possível ser católico e perenialista/tradicionalista ao mesmo tempo, assim como não é possível para um católico acreditar na filosofia que subjaz na maçonaria. Pode parecer loucura a primeira vista para um católico simpático ao perenialismo/tradicionalismo, no entanto não há disparidade absoluta em tal comparação. Trata-se de um sistema completamente herético.

Explicarei da forma mais breve e sucinta possível para não haver mais dúvidas.



Trindade e Natureza de Deus

O Perenialismo afirma que o Absoluto Impessoal é o ultimo “extrato” e fundamento da realidade tendo mesmo causado o Deus pessoal revelador. Todo “misticismo” pseudo-gnóstico (pseudo pois a verdadeira gnose, isto é, conhecimento verdadeiro, vem da união com o Cristo, pela qual participamos da vida Trinitária) dessa doutrina é desenvolvido tendo em vista esse falso fundamento.

O Catolicismo afirma que a Santíssima Trindade, Deus Pessoal, constitui o fundamento de todas as coisas e não existe nada acima d’Ele. O Filho é gerado pelo Pai na realidade divina da eternidade e o Espirito Santo procede de ambos, enquanto que o Pai não foi gerado, nem foi causado por alguma coisa ou não-coisa superior a Ele.

Igreja Católica X Unidade Transcendente das Religiões

O Perenialismo afirma a existência de uma “Unidade Transcendeste das Religiões”, ou seja, todas as chamadas “religiões tradicionais” ou “religiões reveladas” apresentam uma simbologia que embora exotericamente as distinga aos olhos das pessoas normais (mesmo clérigos, teólogos e santos), esotericamente aqueles que compreendem os símbolos, isto a elite perenialista, percebe que elas se fundamentam na mesma verdade metafísica unificadora. As religiões seriam como caminhos de uma montanha que conduzem ao mesmo pico. Seriam depositarias da "Tradição Primordial" que hoje não existiria em sua forma originária, mas esparsa no núcleo das religiões tradicionais. Segundo o perenialismo nenhuma religião pode pretender em absoluto ser a única e verdadeira religião revelada, mas apenas de maneira relativa em razão da simbologia tradicional e perene da qual ela seria depositária. A qualidade de uma religião seria medida de acordo com a preservação nela do verdadeiro esoterismo que constituiria essa “Tradição”. Guenon o expoente máximo da escola tradicionalista chegou a teorizar no livro “O Rei do Mundo” a existência de um verdadeiro centro espiritual e de um líder espiritual secretos aos olhos do mundo, que não são a Igreja e o Papa e nenhuma outra instituição religiosa conhecida (que ele considera apenas como centros espirituais relativos).

O Catolicismo é fundamentalmente avesso a tal doutrina afirmando constituir a plenitude da Verdade. Jesus Cristo, Deus Encarnado, fundou a Igreja Católica que é a depositária da Revelação Pública e Universal sobre a realidade mesma. Para os Santos Padres a Igreja é o verdadeiro Centro Espiritual do Mundo. A Igreja é o Trono de Deus no mundo material pelo qual o Espírito Santo emana por toda criação enviado por Cristo desde o Trono de Deus no mais Alto dos Céus (O Trono é a união consubstancial das três Hipóstases Divinas). Como a Igreja é este vetor da manifestação da presença de Deus no universo material, toda história humana, toda história do cosmos, gira em torno do que acontece com Ela. Por isso verdades a aspirações justas presentes em outras religiões, não pertencem fundamentalmente a elas, mas sim a Igreja. São sementes do Logos que o Semeador semeia e podem ser captadas pelo intelecto dos homens dessas religiões, que embora não conheçam a plenitude da Revelação, tentam perseverar no conhecimento de Deus. Contudo por não aceitarem a Revelação, não possuírem a plenitude da verdade, tais religiões podem permitir que tais sementes sejam sufocadas pelos abundancia dos erros de seus falsos sistemas de crença.

Distinção Exoterismo/Esoterismo contra os verdadeiros Dogmas e Santificação

O Perenialismo faz uma distinção precisa entre exoterismo (as doutrinas religiosas tal como conhecidas pelo fiel comum) e esoterismo (o fundamento unificador e transcendente das verdades metafísicas escondido na simbologia dessas doutrinas que embora se contradigam superficialmente estão metafisicamente unidas sendo conhecidas apenas pela elite: os perenialistas).

O Catolicismo não faz distinção clara e limitada entre exoterismo e esoterismo, pois são dois conceitos inter-relacionados e correspondem a fases da via espiritual. A verdade em seu aspecto dogmático e a conseguinte adequação do intelecto a verdade doutrinária (a fé) é a porta de entrada para a vida interior ou "esotérica" e tal conteúdo doutrinário é testemunhado como absolutamente verdadeiro por aqueles avançados na via da divinização/santificação. O dogma e muito menos a Pessoa Divina de Jesus jamais são relativizados durante a contemplação da Verdade, muito pelo contrário, toda a Revelação se torna verdadeiramente viva e operante naquela alma principalmente meditando na pessoa de Cristo. Por outro lado não significa que este processo de conhecimento esgota a compreensão de Deus. De forma alguma. Quanto mais alguém se aprofunda no Mistério Divino fica claro que a razão humana não é capaz de compreender as profundezas de Deus. A experiência da incapacidade de Santo Agostinho diante do anjo na praia quando tentou compreender a Trindade e o êxtase místico de Santo Tomás de Aquino que abriu seus olhos sobre o abismo da Transcendência Divina e que o levou a parar de escrever, pois segundo ele tudo era palha, são exemplos da existência do inefável durante a vida interior. Este processo de aproximação e distanciamento é natural nos santos. Contudo não é a auto-iluminação que salva o homem mas Deus que desce ao seu encontro. Devido a isso o conhecimento da realidade não está disponível apenas a uma elitezinha intelectual pseudo-gnóstica, mas sim aos santos (santos no sentido católico e não no perenialista). Quando o Catolicismo afirma isso não está de forma alguma negando a possibilidade da ação do Espírito Santo em pessoas de outras religiões e mesmo da existência de sinais da ação da graça nelas. Qualquer pessoa que sem culpa se encontra em ignorância invencível sobre a verdade da Revelação, mas que persevera para cumprir a lei natural e possua fé sobrenatural num Deus criador, faz parte da Igreja, pois as fronteiras da Igreja ultrapassam os seus limites institucionais e tem seu fim no coração dos homens que são conhecidos apenas por Deus. Qualquer verdade mesmo que dita pelas falsas religiões não pertencem intrinsecamente a elas nem e a nenhuma "Tradição Primordial". 

A Encarnação do Logos em Jesus Cristo

O Perenialismo tende a admitir que Jesus de Nazaré foi a encarnação do Logos, contudo de maneira relativa mais a título de uma habitação e não no conceito cristão da Encarnação. Defende que Jesus não foi a única habitação histórica do Logos, mas houveram outras como Buddha, Maomé e mesmo o Corão, que seria o Logos feito livro. O Perenalismo dá pouca importância as consequências da Encarnação, Morte, Redenção e Ressurreição de Cristo atribuindo pouco peso a universal aceitação destes fatos e a realidade vinculante que eles representam para todos homens não importando as falsas religiões da qual façam parte. Tais fatos seriam absolutamente periféricos a logica interna do perenialismo.

O Catolicismo afirma que Jesus Cristo é a Encarnação Absoluta do Logos Divino. Na historia não existiu e jamais existira outra. Qualquer presença  do Logos na realidade não deve ser comparada a Encarnação, mas sim a ação, permeação ou sustentação, isto é, as sementes do Logos presentes na realidade material que podem ser percebidas e substanciadas de maneira imperfeita pelo homem que não recebeu a Revelação. No entanto o Logos, o Filho de Deus, assumiu em absoluto e INTEIRAMENTE a natureza humana de Cristo e apenas a d'Ele a ponto de Jesus afirmar ser o Caminho, a Verdade e a Vida. Essa união das naturezas humana e Divina que sem misturar ou dividir as duas naturezas que nos permite dizer: Cristo é o Logos e o Logos é o Cristo. Para o Catolicismo a Encarnação, Morte, Redenção e Ressurreição são fatos históricos transcendentes e constituem o núcleo central da fé cristã.

Teologia e Filosofia X Metafísica Perenialista

O Perenialismo afirma que sua metafísica supera tanto a filosofia quanto teologia. A metafísica estaria fundamentada na mera intuição intelectual como participação ativa na sabedoria divina. Ao contrário da teologia que é passiva e fundamenta-se sobre a necessidade da fé, a metafísica a transcenderia esta necessidade. O conhecimento filosófico (este desprezado completamente por Guenon por exemplo) e teológico estariam abaixo da pseudo-gnose Metafísica.

O Catolicismo afirma que a metafísica é ferramenta integrante da filosofia e não está por si só de forma alguma acima da teologia e nem mesmo acima do sistema filosófico em si. A Teologia é a ciência mestra da Filosofia que a serve e esta acima de qualquer outra ciência periférica não só por partir da fé revelada na sua investigação, mas também por ser a ciência dos santos, aqueles que tiveram a experiência de Deus. A sabedoria verdadeira sobre o conhecimento divino não está acessível a razão humana que não se abre para a fé, pois a realidade divina transcende completamente as forças naturais da razão. Nem está ao alcance de qualquer intuição pela própria natureza transcendente do objeto que se busca conhecer. Só é possível conhecer a Deus plenamente por meio da ciência submetendo todas as forças da razão e do ser a verdade revelada. Não há espaço ai para joguinhos metafísicos inúteis.

Hipocrisia Perenialista

Finalizando esta pequena exposição é fundamental lembrar que os perenialistas tem uma insistência curiosa em aconselhar aqueles que se aproximam deles a procurarem uma religião tradicional, aconselhando a perseverança na vivência da ortodoxia dessa tradição. Por mais que tal movimento possa se apresentar tentador aos católicos justamente por esse apelo a restauração da ortodoxia interna isso não deve iludir ninguém. O perenialismo/tradicionalismo por mais que negue com todas as forças tal adjetivação é um sistema universalista. Não se fundamenta em uma religião revelada conhecida em seus fundamentos básicos e necessários pelas pessoas comuns, mas manipula a religião com o fim alcançar os dados de uma Tradição Primordial e sua Unidade Transcendente pseudo-gnóstica presente esparsamente no esoterismo das religiões tradicionais, mas não se identificando com nenhuma em particular. Fazem uso da metafísica hindu e do sistema religioso do Islã, mais especificamente do Sufismo. Não é coincidência que maioria esmagadora dos perenialistas/tradicionalistas seja muçulmano sufi ou nutram simpatia pelo sufismo, pois ai encontraram uma guarida perfeita para sua doutrina esotérica universalista. O Cristianismo e os cristãos são apenas massa de manobra utilizada para infiltrarem gente sua nas religiões do Ocidente com a finalidade de restaurar o tanto quanto for possível a Tradição Primordial.

Conclusão


Muito mais poderia ser dito sobre essa heresia, como por exemplo tendencia gerada por ela em muitos dos seus seguidores que são levados a adotar práticas mistificantes e ocultistas com entidades do mundo sútil (os demônios). O que se revela uma enorme falta de prudência, pois o demônio, intelecto puro, possui um vasto conhecimento da esfera metafísica e pode enganar com muito facilidade qualquer imprudente que brinque com essas coisas. 

Quem quer que estude o perenialismo deve ter em mente esta extrema incompatibilidade e oposição em relação ao catolicismo que foi demonstrada até aqui. Lembrem-se que qualquer verdade ou dado cosmológico que reflita validamente determinado aspecto da natureza e da criação que seja porventura exposta pelo perenialismo, não pertence a ele nem ao seu sistema metafísico frankenstein cheio de erros e constituído de pedaços de filosofias e doutrinas religiosas do oriente, que não respeita a coerência interna do Cristianismo. Quaisquer dessas verdades pertencem ao Logos e a sua Igreja como acorre com qualquer filosofia natural que alcança certas verdades sobre a realidade. A ideologia da escola tradicionalista e sua metafisica devem ser totalmente separadas de todo conhecimento valido do qual se apropriaram e que portanto não os pertence. Os católicos devem evitar qualquer comprometimento com esse sistema universalista ao custo da Verdade. 

2 comentários:

  1. Salve Maria.

    Por isto que o Padre sempre diz..."não deixem que os chamem de tradicionalistas pois o termo é complexo e acaba levando a uma situação duvidosa"
    Basta que se diga "somos católicos apostólicos romanos"
    Hoje em dia as heresias abundam em todos os campos,tanto religioso (Igreja Católica Apostólica Romana,claro infiltradas por lobos ferozes e sanguinários) como no campo social (sociedade moderna,um exemplo disto é o comunismo que grassa ao meio dia)
    Infelizmente vivemos tempos difíceis e sem muito com o que sonhar e esperar das autoridades constituidas para a judar o povo.
    Rezemos...

    Salve Maria.

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  2. Eu quase que me levo pelos encantos de autores influenciados pela Gnose! Graças a Deus que não caí muito profundamente neste mar de lama.

    Excelente artigo.

    Salve Maria!

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